Lei Seca: o mal necessário
Data: 23/07/2008 - Diário da Manhã
As campanhas contra a violência no trânsito há muito tempo advertem: bebida e direção não combinam. Acidentes envolvendo motoristas embriagados não deixam dúvidas que o resultado dessa mistura pode ser desastroso. Beber um copo de cerveja, uma taça de vinho ou uma caipirinha como aperitivo após o trabalho é um hábito comum a muitos goianienses e para muitos, pode parecer inofensivo. Vivemos numa cidade famosa pela grande oferta de bares e bons restaurantes. Numa passada rápida em setores onde se concentram esses estabelecimentos, é possível observá-los sempre cheios, mesmo nos dias de semana.
Porém, há um mês - completado no último domingo - os brasileiros foram obrigados a se adaptar a uma nova e rígida regra. Trata-se da lei nº 11.705 que ficou conhecida por "lei seca". Ela estabelece que os motoristas sejam criminalizados ao dirigir com teor alcoólico superior a três decigramas por litro de sangue. Ou seja, não é permitido tomar nem mesmo um copo de cerveja. Caso seja comprovado o excesso de álcool, o condutor deverá pagar uma multa de R$ 955, ter a habilitação suspensa por um ano e pode até mesmo ser preso.
Não são apenas os motoristas que estão preocupados com a lei seca, ela também tira o sono dos donos de bares e restaurantes. Segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em Goiás, a Abrasel GO, nas duas primeiras semanas da implantação da lei foi registrada uma queda de 25% no faturamento desses locais. É lamentável, claro, pois pessoas acabam prejudicadas.
Mas devemos pensar nos benefícios que a nova regra pode nos trazer. Ela foi criada com a intenção de salvar vidas. E tem salvado. Dados do Batalhão de Trânsito da capital informam que a média mensal era de sete mortes nos acidentes da Região Metropolitana de Goiânia. Após a lei seca, esse índice caiu para duas mortes, o número de acidentes caiu 14% e o de ocorrências 21,23%. Claro que causar desemprego é um fator preocupante, porém, maior que isso é a vida.
Se por um lado o consumo nos bares caiu, por outro, o brasileiro, um dos povos mais criativos do mundo, já arrumou uma maneira de se beneficiar de algum modo desta lei. Em diversas cidades do país foram criados os "disque-pileque". São serviços para encaminhar o motorista que se excedeu no álcool de volta para casa. Em Brasília, por exemplo, o serviço pode ser encontrado em diversas casas noturnas e varia de R$ 10 a R$ 30 conforme a distância.
Não é preciso deixar de se divertir. Táxis são alternativas viáveis em caso de excesso numa comemoração especial. A lei, por mais rigorosa que seja, força alguém do grupo de amigos ou da família a ficar sóbrio para dirigir. Esta é uma prática que deveria ser mais comum há mais tempo. Outro ramo que pode se favorecer em tempos de tolerância zero são as distribuidoras de bebidas geladas. Comprar e levar para a casa é uma ótima opção para quem gosta de beber um pouco mais.
Infelizmente, em prol de um bem maior para toda a sociedade, algumas pessoas acabam se privando do direito de consumir pequenas quantidades de bebidas alcoólicas. O chopinho na pizzaria ou a taça de vinho podem custar caro depois. Porém, quando vemos casos como o acidente que aconteceu em Anápolis onde um jovem de 18 anos matou três pessoas da mesma família, temos que por a mão na consciência e ver que uma nova conduta no trânsito é um bem necessário.
Daniel Goulart é deputado estadual e vice-presidente do PSDB goiano.
Data: 23/07/2008 - Diário da Manhã |