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Carta aberta ao prefeito Iris Rezende

Data: 23/07/2009 - Diário da Manhã

Andando pelas ruas de Goiânia, neste mês de férias escolares, algumas conjecturas saltaram à mente. Trânsito menos caótico, motoristas mais calmos, pessoas de sorriso aberto nas paradas de ônibus. Como se tratava de uma sexta-feira, talvez planejassem o merecido descanso do final de semana ou o destino nas férias com os filhos. Poderiam, ainda, estar satisfeitas com o fato de não se verem obrigadas a enfrentar o empurra-empurra dos terminais de ônibus - tão recorrentes em meses ditos ‘normais’.

Com efeito, o movimento nos coletivos em julho não parece nem de longe com o de outros meses, quando, no horário do rush, o simples ato de entrar no ônibus é motivo para bradar vitória. Exemplifico citando os usuários das linhas Parque Atheneu-Campinas e Parque Atheneu-Centro, que no horário próximo ao meio-dia, para se deslocar no sentido bairro-centro e cumprir seus horários, muitos têm que contar com a sorte. Bem aventurados os que encontram motoristas que param os ônibus, mesmo cheios, para que os levem – ainda que amarrotados, suados e doloridos – aos seus destinos. Se um passageiro desmaiar por falta de ar, não será possível sequer cair. Mulheres assediadas e batedores de carteira são outros problemas a serem enfrentados, que transformam a ida ao trabalho ou à escola num ato epopéico.

Lembro, também, outras linhas que circulam no concorridíssimo Terminal da Praça da Bíblia, como o Aparecida de Goiânia ou o Conjunto Itatiaia. Os estudantes da Universidade Federal de Goiás que o digam. A disputa é à tapa (na acepção da palavra) por uma vaga no coletivo que se desloca para o Campus II da UFG, pela manhã.

Realmente, o relógio do Paço Municipal deve estar com defeito. Está mais de quatro anos atrasado. Pois já se vão quatro anos e sete meses da promessa do então candidato Iris Rezende Machado garantindo “resolver totalmente o problema do transporte coletivo de Goiânia em seis meses”, conforme suas próprias palavras. Recordo-me ter ouvido, assistido e lido a expressão “resolver totalmente” cantada em prosa e verso nos programas eleitorais, nos debates e nas entrevistas do então candidato do PMDB. O fato, excelentíssimo senhor prefeito, é que o ‘prazo’ expirou há quatro anos e um mês. Ah, sim, ônibus novos estão nas ruas, mas, ao que parece, a quantidade total de coletivos diminuiu e a qualidade do serviço continua péssima.

Convido o senhor a fazer uma visita ao terminal da Praça da Bíblia, assim que agosto entrar, às 7 horas da manhã de um dia útil qualquer da semana, para checar a veracidade dessas informações. Mas atenção: aconselho-o a levar seguranças. De minha parte, irei portando algumas gravações feitas durante a campanha eleitoral de Vossa Excelência.

O senhor pode aproveitar a ocasião e ajudar a avaliar o índice de (in)satisfação dos usuários do Eixo Anhanguera. Sobretudo os milhares de moradores de Aparecida, Bonfinópolis, Brazabrantes, Goianira, Senador Canedo, Santo Antônio e Trindade que, agora, têm que dispor de R$ 1,10 a mais todos os dias para retornarem aos seus lares. Algo em torno de R$ 28 mensais, ou 5% dos vencimentos de um trabalhador que recebe salário mínimo. Gente que tem aguardado - em pé - os chamados ‘Cartões Inteligentes’ que seriam implantados mês passado, para que a integração entre as linhas fosse feita fora dos terminais ainda não vingaram. Esse aumento, sei muito bem, não é responsabilidade da Prefeitura e sim do Governo do Estado.

Faz-se necessário repensar a maneira de definir políticas públicas para o transporte coletivo em Goiânia. Democratizar a mobilidade da população de baixa renda, promover um transporte eficiente, pontual, confortável e, acima de tudo, barato é um dever do Executivo Municipal. Passivo, inclusive, de intervenção do Poder Público, se considerarmos os serviços de transporte coletivo como sendo de caráter essencial, conforme prevê a Constituição Federal de 1988. O sistema viário, a engenharia de trânsito e o transporte público são diretrizes básicas para definir um planejamento eficaz em conjunto com outros sistemas urbanos que garantam o ‘habitat’ dos cidadãos, principalmente dos residentes em uma metrópole feito Goiânia.

Olhando a questão por outro ângulo, nossa Capital já não suporta mais automóveis nas ruas. Os ‘frescões’, ou melhor, os ‘vaziões’ não têm cumprido o fim a que foram destinados e estão operando em regime de déficit. Um grande hipermercado, que distribuía passagens para as vans da CMTC aos clientes que gastassem R$ 15 no estabelecimento, terminou com a promoção. Ainda é mais barato andar de táxi com algum colega que tem o mesmo destino.

Lembro-me da promulgação da Lei 15.047 (29/12/2004), que instituiu os subsídios das passagens para o Eixo Anhanguera. Nosso então governador, Marconi Perillo devolveu a dignidade aos usuários do transporte coletivo que faziam e fazem aquele trajeto, seja para trabalhar durante a semana, seja no fim de semana, para gozar de algum lazer em outro lado da cidade, visitar amigos e parentes, deslocando-se de leste a oeste, de norte ao sul, a um custo acessível a todos os bolsos. Até procurar emprego era mais fácil.

Caro prefeito: barateamento e qualidade são as duas palavras que resumem o conteúdo de qualquer política séria para melhorar o transporte coletivo nas grandes cidades brasileiras. Não há alternativas: o transporte coletivo tem de ser entendido como fator de desenvolvimento, inclusão social e geração de empregos, já que os seus benefícios têm influência amplamente positiva para as empresas, os governos e todos os setores da sociedade. É esse o trabalho que todos em Goiânia querem ver.


*Daniel Goulart é deputado estadual e vice-presidente do PSDB goiano
danielgoulart@assembleia.go.gov.br

Data: 23/07/2009 - Diário da Manhã

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